Treino com clicker

Para melhor compreendermos a essência do treino com clicker, temos de rever alguns princípios básicos do treino. A primeira função de qualquer treinador é descobrir fatores que motivam o animal a aprender a desempenhar tarefas. Aos fatores que motivam comportamentos, chamamos reforços.

Para ficarmos com uma melhor idéia dos princípios deste tipo de treino, olhemos para os golfinhos. Uma das grandes atrações num parque marinho são os saltos e piruetas sintonizados na perfeição. Muito antes dos treinadores darem o comando para estes saltos e piruetas, têm de começar por um objetivo mais básico – conseguir que o golfinho salte uma vez. Podem simplesmente esperar pelo comportamento (um salto) e dar um peixe (reforço). Durante vários dias reforçam todos os saltos. Ao fim de uma semana, o golfinho terá aumentado a frequência de saltos. De fato, o mais provável é ele começar a saltar sempre que vê o treinador aproximar-se com um balde de peixes. Depois de aumentada a frequência dos saltos, o próximo objetivo é conseguir saltos mais altos, e por aí fora até se conseguir uma rotina completa de saltos e piruetas.

Desde a altura que o homem começou a treinar animais, o elogio verbal tem sido parte integrante do treino. Para além de servir como recompensa por uma boa prestação, também tem outra função importante, que é transmitir ao animal qual a ação que mereceu a recompensa. Contudo, o treinador vê-se perante um problema: transmitir no momento exato qual o comportamento que gostou! A solução não é abandonar o elogio verbal, mas sim refiná-lo. Em vez de dizerem “bom menino!” para transmitir “gostei disso!”, os treinadores de golfinhos fazem uma coisa diferente. Como quando se acaba de dizer “bom menino!” o golfinho pode ter feito um percurso de 20 pés no ar, é impossível ele entender exatamente qual a parte do seu comportamento que mereceu o reforço, a não ser que o treinador conseguisse dizer “bom menino” numa fração de segundo! Então, os treinadores de golfinhos utilizam apitos e clickers para transmitir esta mensagem no momento exato. A associação do apito ou clicker com um reforço (peixe), facilita a comunicação entre o treinador e o golfinho. Quando o golfinho salta, o treinador clica o momento em que o golfinho atinge a parte mais alta do salto. Ao fim de uma série de repetições, o golfinho terá aprendido que se não ouve o clic não recebe recompensa. Através de tentativas, aprenderá que um salto baixo nunca causa um clic, mas um salto alto sim. O clic transmite-lhe que o que fez é a ação pretendida pelo treinador, enquanto que a ausência do clic transmite-lhe que não praticou o comportamento esperado.

Embora o treino de um animal marinho pareça um mundo à parte do treino canino, os princípios não são assim tão diferentes. O apito ou clicker do treinador de golfinhos é simplesmente uma maneira abreviada de dizer “bom menino”. Os psicólogos caninos que inicialmente utilizaram o clicker para moldar comportamentos, chamaram-lhe um reforço secundário. Reforços primários são os estímulos que naturalmente motivam o animal para trabalhar, tais como, comida, carinho, ir atrás de uma bola, etc., ou que induzem comportamentos de causa biológica, tal como a excitação. Um reforço secundário é um estímulo que, quando associado a um reforço primário, adquire o mesmo valor do reforço primário. Para compreender melhor este conceito, experimentem pegar na guia do seu cão e vejam como ele fica excitado. O reforço primário é o passeio e o reforço secundário é a guia que, como prenúncio do passeio, causa uma reação de excitação. O clicker é associado a vários reforços primários, e depois de estabelecida esta associação, pode ser utilizado de várias maneiras:

– O clicker identifica, numa maneira precisa, o comportamento desejado. No tempo que levamos a dizer “bom menino” o animal pode ter oferecido o comportamento desejado logo seguido por um indesejado. Por exemplo, o animal não sabe se foi do “senta” ou se foi do saltar para o treinador uma fração de segundo a seguir ao senta, que o treinador gostou.

– O clicker pode ser utilizado à distância. É impensável tentar dar um pedaço de comida ao animal no momento exato em que um comportamento ocorre, quando este está longe do treinador. O clicker serve de ponte entre o momento em que ocorreu o comportamento desejado e a entrega da recompensa.

– O clicker pode substituir a comida. Tal como o elogio verbal tem a capacidade de manter um comportamento na ausência de comida, o clicker também tem essa capacidade de motivação.

– O clicker pode desviar a atenção do cão à comida. Alguns cães são tão motivados pela comida que, ao menor sinal de uma recompensa com comida, quebram a sua concentração. Como há sempre um ligeiro atraso entre o clic e a recompensa, o cão é obrigado a focar-se no comportamento que causa o clic em vez de na recompensa que se segue.

– O clicker também marca o fim de uma ação. Quando se ensina o fica, por exemplo, o clic indica durante quanto tempo o cão deve permanecer numa posição antes de ser recompensado. Se o cão quebrar a posição antes de ouvir o clic, não é recompensado e o treinador tenta outra vez.

– O clicker pode facilmente ser transferido de uma pessoa para a outra. Embora o som da nossa voz possa ser um estimulo forte para o cão, também tem uma desvantagem. Se o cão é condicionado a responder uma única voz, torna-se muito difícil alguém ajudá-lo no adestramento. O clicker oferece duas vantagens diferentes para o adestrador. Nem sempre a pessoa que está treinando o cão está na melhor posição para observar o desempenho. Um observador com um clicker pode ajudá-lo a capturar o melhor momento, mesmo quando o handler está de costas para o cão. Outra vantagem é que usar um reforço secundário não pessoal dá a possibilidade ao cão de transferir sua atenção para um novo handler (o dono, por exemplo). Animais tímidos que são treinados com clicker podem associar coisas boas com novos handler mais facilmente, quando estes também utilizam o clicker.

Trecho do livro “Click & Treat” de Gary Wilkes.
Traduzido por Alexandra Santos para a Companhia dos Animais. Adaptado para Português-Brasil.

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3 Responses to “Treino com clicker”


  1. 1 Paula Souza 21 outubro, 2009 às 9:42 pm

    Muito interessante! Sou apaixonada pelo clicker. Posso dar uma sugestão? Que tal fazer um post (se você já fez, desculpe) sobre os erros comuns no uso de clicker, como falta de timing, sessões cansativas ou prêmios que não motivam o cão? Seria uma boa…

  2. 3 sandramathias 24 janeiro, 2010 às 7:29 pm

    Olá tudo bem?

    Sou a dona da Lindinha, lembra dela?
    A beagle que faz agility e foi adotada…

    EU fiz um vídeo com o carregamento do clicker, se puder dá uma olhada…

    http://diariodeumabeagle.com.br/lugh-jr-iniciando-com-o-clicker/


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